O bonde: usos e abusos
Desde 1859 o bonde fazia parte da vida do carioca. Meio de transporte barato, que acompanhou o crescimento da cidade, o trilho urbano não facilitou apenas o deslocamento, ele alterou os hábitos da população. Com o bonde muita gente pôde deixar os bairros em que viviam confinados e se espalhar, muitas vezes por mera distração, pelas ruas da cidade.
“O Rio de Janeiro era uma cidade calma e pacífica.
Às nove horas da manhã saíam os cidadãos para os seus empregos.
Às três passavam pela rua do Ouvidor com embrulhos sobraçados; e meia hora depois estavam em casa, onde viam com prazer toda a família reunida.
Hoje as cenas são outras:
– Onde está a senhora? pergunta o pai de família ao voltar para a habitação.
– A senhora saiu.
– Sozinha?
– Sim, senhor.
– Não disse para onde foi?
– Não, senhor. Embarcou no bonde, pouco antes do meio-dia e recomendou-me que tomasse conta da casa.
– E sinhazinha?
– Sinhazinha também embarcou no bonde depois da senhora...
– Onde foi ela?
– Foi visitar D. Felícia, em Botafogo.
Em resumo: o filho mais velho saiu de bonde, o do meio seguiu o exemplo do mais velho e o caçula já tem no bolso um níquel de dois tostões e o cigarrinho pronto para ir dar também o seu passeio.”1
Existiam bondes dos mais variados feitios: puxados por um, por dois ou por três burros, bonde que forma comboio, bonde que trepa morro, que transpõe aqueduto, bondes para casamentos, para bagagem, bonde de tostão, de duzentos réis, de três e quatro tostões, etc.
“Os carros de praça e os tílburis passaram ao rol das velharias inúteis; por este motivo eles hoje se acham reduzidos a meia dúzia de traquitanas desconjuntadas e sujas, tiradas por cavalos aposentados à meia ração, em cujo olhar comprido e tristonho lemos um eterno sonho de capim verde e milho seco.”2
Em 1892 surgiu o primeiro bonde elétrico. Os carros da Companhia de Vila Isabel, pintados de amarelo, foram logo apelidados, por conta de acidentes ocasionados pela imperícia dos motorneiros, de “perigo amarelo”.
“Agora, quando vocês virem um cidadão afobado, com o chapéu enterrado até as orelhas, guarda-chuva muito apertado debaixo de um dos braços e debaixo do outro um grande embrulho de papel jornal; ares assustadiços, como quem vai sempre com medo de que lhe aconteça algum desastre, jurem, podem jurar que é morador de Vila Isabel, freguês do perigo amarelo. Apesar do seu aspecto de assustado, é sem dúvida, o passageiro mais valente e mais... resignado. O Destino condenou-o a viajar nos bondes da Light e muitas vezes o pobre diabo ainda não tem seguro de vida, nem fez testamento.”3
Rodando praticamente sem concorrência, o bonde reinou soberano. Todos o utilizavam, até mesmo alguns políticos faziam uso. Por isso o bonde era visto (e ainda hoje é lembrado) como o espaço democrático por excelência. Olavo Bilac, em crônica de 1903, se refere ao bonde como o “grande apóstolo do Socialismo”, o “Karl Marx dos veículos”4. Há, evidentemente, uma boa dose de exagero nessas apreciações. Numa sociedade refratária a qualquer tipo de situação igualizante é difícil crer que o bonde fosse mesmo esse “nivelador de fortunas” a que se refere Bilac. Muitas companhias ofereciam carros de 1ª e de 2ª classe. A questão não se resumia apenas ao preço das passagens. No bonde de 1ª classe não era permitida a entrada de passageiros descalços, sem paletó ou sem gravata. Nos bondes de 2ª classe, apelidados de “caraduras”5, os bancos eram paralelos a lateral do veículo deixando um espaço no meio (a “sala de visitas”, como dizia João Foca) para as sacolas, mercadorias e embrulhos dos passageiros. Segundo Urbano Duarte, o freguês do caradura perde para sempre a consideração e o respeito dos seus semelhantes. O próprio condutor o trata apenas por “psit”, enquanto que num bonde de 1ª classe ele era mimoseado com um “sôr doutor”.
“Quando se encontra com um bonde de 1ª classe, os passageiros desse lançam para o caradura um rápido olhar de fulminante desprezo.”6
Porém, a par de toda a utilidade estavam os inconvenientes e aborrecimentos que uma viagem de bonde podia proporcionar – e a julgar pelo testemunho dos cronistas não eram poucos.
Pois então vejamos. Comecemos pela coisa que, na opinião de Urbano Duarte, mais incomodava o pobre passageiro, incômodo que surgia de um benefício oferecido pelas companhias. No bonde não eram cobradas (ou cobradas apenas a metade) a passagem das crianças, que deviam permanecer em pé no veículo ou, se fossem pequenas, no colo dos pais.
“A especulação já conhece os meios de explorar esta concessão das companhias.
Há marmanjos que tem duas fatiotas diferentes, uma para andar a pé, outra para andar de bonde.
A primeira é composta de calças compridas, paletó, colete e chapéu de homem; a segunda é roupa de criança, calções justos abotoados no tornozelo, jaleco e gorro enfeitado. Assim fardados de criança, tenho visto franganotes de buço incipiente viajarem de pé no intervalo de dois bancos, com visível incômodo para os passageiros circunvizinhos.”7
Outro frequente motivo de queixa eram os passageiros que fumando cigarrões e charutangas empesteavam os veículos (nos bondes de 1ª classe era proibido fumar nos três primeiros bancos).
“Em um bonde, o fumante de cigarro não faz objeção nenhuma a sentar-se no último banco. O cachimbador já faz questão de acomodar-se no meio do veículo, a fim de poder beneficiar o maior número possível de passageiros com o cheiro do seu cachimbo. O consumidor de charuto é, por índole, o primeiro do bonde: só admite à sua frente o motorneiro. Nos carros que têm os três primeiros bancos imunizados, ele se instala no quarto. Esta lei abrange sem exceção, os fumante de charutos hamburgueses e napolitanos – uma infinidade de marcas que variam de vinte réis a tostão a dúzia.”8
Cuspir no interior do veículo também era proibido (e passível de uma multa de 10 mil réis) porém os condutores faziam vista grossa e o chão dos bondes viviam invariavelmente escarrados.
Outro mau costume era o hábito de se subir e descer com o bonde em movimento. Era uma verdadeira mania. Quem esperava o bonde parar para embarcar passava por caipira, velhote, babaquara. Porém este era um hábito que podia ter consequências funestas, as quedas eram o de menos pois a brincadeira podia terminar com uma mão esmagada ou uma perna decepada pelas rodas do bonde. Os jornais da época estão repletos com notícias de acidentes ocasionados pela prática de se tomar o bonde andando.
Outro costume, este visando alardear ares cavalheirescos, era o de se oferecer para pagar a passagem de amigos ou até mesmo de meros conhecidos. O condutor se aproximava e um passageiro se prontificava a pagar a passagem deste e daquele. Uma fineza, um costume inocente até, mas que muitas vezes deixava os condutores numa sarabanda.
“Pois não é um mau hábito, levantar-se uma pessoa no primeiro banco e indicar a dedo ‘aquela moça de branco e azul, no terceiro banco’, ‘aquele senhor de sobrecasaca e cartola, na plataforma’, ‘aquele menino de roupa de brim pardo no quinto banco e aquela senhora de capa preta no barto banco’?
Enquanto isto o pobre do condutor, atrapalhado com toda aquela série de livrinhos, faz esforços para conservar na memória todas aquelas indicações.
E se o coitado, por engano, cobra uma passagem já paga pelo ‘amável cavalheiro’, já se sabe que leva grito:
‘Oh! seu, pois esta passagem já não foi paga? Quer cobrar duas vezes? É sempre assim, só tratam de lesar o passageiro’.”9
Se o hábito era condenado pelos condutores, era louvado pelos filantes inveterados e prontos em geral.
Grupo de motorneiros e condutores. O Malho, 4 de novembro de 1911.
Mas esses e outros pequenos inconvenientes (o passageiro que se distrai entabulando conversas intermináveis com conhecidos ou desconhecidos, o amante da pinga que cozinha a sua camoeca com um passeio a Botafogo ou Laranjeiras, o cidadão que carrega um queijo chulé embrulhado em papel) não se comparavam aos abusos oferecidos diariamente pelas companhias. Os bondes quase nunca respeitavam os horários e não raro desapareciam por completo. Restava ao candidato a passageiro duas alternativas: arrancar os cabelos da cabeça ou seguir adiante no “bonde de cachorro” (ou seja, ir a pé). Ou então, depois de muito esperar, quando o almejado bondinho surgia no horizonte, o alívio era cortado pelo condutor que avisava que o carro ia recolher à estação.
“Existe atualmente neste Rio de Janeiro uma coisa mais difícil do que alugar casa, do que comer, do que calçar, do que vestir, do que comprar qualquer coisa. É apanhar o bonde. A concorrência é tão grande, e os tramways tão poucos, que quem tiver de voltar para casa entre as três e as cinco, se não possuir pé ligeiro, cara dura e braço firme, fica a pé, como se diz no Rio Grande.
Cortou-me o coração ver há dias uma pobre velhinha à caça do seu bonde do Caju. Era dia de chuva, e os carros já vinham cheios desde a rua Luís de Camões. Ela, coitadinha, lá esteve das quatro às seis à procura de lugar.
Tendo a vista cansada, não podia ler a tabuleta; e, mal despontava um carro, perguntava a quem estava do seu lado: Faz favor de dizer se é pro Caju? Se lhe respondiam afirmativamente, ela arregaçava a saia, saltitava na lama, toda trêmula e titubeante, mas, quando com grande esforço subia ao estribo, todos os bancos estavam ocupados! Ninguém se compadecia da infeliz. Por fim, perdendo a esperança de ir para o Caju e tendo embarcado por engano em um bonde de Catumbi, a pobre velhinha resignou-se, encolhendo os ombros como quem diz: Seja o que Deus quiser! deixou-se conduzir a Catumbi.”10
Nas horas de maior movimento o problema era da superlotação, viajava-se no sistema sardinha em lata. Em pontos como o largo de S. Francisco o bonde chegava e era cercado por ambos os lados
“e quem não aprendeu um bocadinho de ginástica está mal de sorte.
Dá-se entre os que entram e os que saem um conflito de partes moles (o que o finado príncipe Natureza chamara choque de pai e mãe) que procuram sentar-se.
E quando um cidadão consegue alfim um lugarzinho, lá aparece uma senhora conhecida que olha suplicemente para ali.
O remédio aqui é puxar logo um jornal e só dele desferrar os olhos quando o carro estiver no Campo [de S. Cristóvão].”11
Os bondes saíam apinhados, gente amontoada no bancos e gente em pé nos estribos, pendurada nos balaústres. Ao longo da viagem o cocheiro (depois o motorneiro) ia dando o seu clássico brado de alerta aos pingentes: “Olhe o andaime à esquerda! Olhe a carroça à direita!” Além do risco que viajar no estribo oferecia, os pingentes dificultavam ainda mais o trabalho dos condutores, obrigados a realizar prodígios de ginástica para receber o níquel de passageiros muitas vezes recalcitrantes.
Max Yantok. “Cenas cariocas”. O Malho, 4 de janeiro de 1913.
Outra questão entre passageiros e condutores surgia por conta das campainhas do bonde. Ao longo dos veículos havia uma cordinha (como aquelas que os ônibus já tiveram) para que os passageiros e condutores dessem o sinal de parada. Mas no bonde havia ainda uma segunda cordinha, ligada a um relógio e utilizada pelos condutores para marcar as passagens pagas. Acontecia às vezes de um passageiro puxar a cordinha errada e o condutor, que nada tinha com isso, cobrava do desatento a passagem registrada pelo relógio. Dava-se a inevitável turumbamba entre o passageiro que não queria pagar mais uma passagem e o condutor que não desejava arcar com o prejuízo. Foi o que aconteceu com um coió sem sorte que, querendo ser gentil a uma senhora que ia descer do bonde, levantou-se e puxou a cordinha. Como o bonde não parava ele continuou puxando a cordinha, cada vez mais irritado. Quando o bonde enfim parou o condutor botou a boca no mundo exigindo os níqueis referentes a cada puxadela, pois ele é que não ia se desfalcar pela desatenção dos outros. Pague e não bufe. Resultado: o coió foi fazer um bonito e acabou pagando pela gentileza.
França Júnior. “Bondes”. Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1877.
Urbano Duarte. “Sem rumo”. Jornal do Commercio, 25 de novembro de 1900.
“Passageiros de bondes”. Fon Fon, 6 de julho de 1907.
“Crônica”. Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1903.
A partir dos anos 1930 os bondes de 2ª classe passaram a ser conhecidos como “taiobas”.
Urbano Duarte. “Sem rumo”. Jornal do Commercio, 18 de novembro de 1900.
J. Guerra (pseudônimo de Urbano Duarte). “Humorismos”. O Paiz, 3 de julho de 1891.
R. Manso (pseudônimo de Mário Brant). “O charuto”. Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1911.
“Maus hábitos”. Fon Fon, 25 de janeiro de 1908.
J. Guerra. “Humorismos”. O Paiz, 26 de junho de 1892.
J. Guerra. “Humorismos”. O Paiz, 22 de maio de 1891.




o xingamento "coió" tem um lugar especial no meu coração
Na minha família, sempre falamos “bocoió”. É a primeira vez que vejo somente “coió”. Vamos aderir kkkk